O inferno chegou a Portugal

No sábado à tarde a vida mudou. Um incêndio, que de início não dava sinais de ser preocupante, transformou-se no maior incidente mortal de que há memória em Portugal, ultrapassando inclusive a queda da ponte em Entre-os-Rios.

Tive conhecimento da notícia nesse dia já bem tarde da noite, numa altura em que já havia 19 vitimas mortais confirmadas. Estava em Beja, a trabalho, a fazer cobertura do encerramento do Festival Terras Sem Sombra. A consternação foi total.

O cansaço como que desapareceu e o corpo e a mente despertaram. Não conseguia deixar de ver a televisão. Tentava perceber como é que aquilo tinha acontecido. Como é que um “simples” (que de simples nunca têm nada) fogo tinha alastrado daquela forma e como é que 19 pessoas tinham morrido.

E lembrei-me de mil e uma conversas, entre amigos, entre populares no café, discursos de políticos e outras entidades, a falar de ordenamento do território, da limpeza das florestas, da escolha (errada) do eucalipto. Sei que isto não impediria o incêndio. Mas talvez atrasasse a sua propagação, dando tempo precioso a quem o estava a combater e às pessoas que estavam a fugir.

Ontem, domingo, estive a ajudar uma colega a fazer mil e um directos (pelo menos assim pareceu) para França e Canadá (no meio de tanto trabalho não sei se houve mais algum país envolvido). E de cada vez que procurava mais dados, que me apercebia da real dimensão do incêndio, toda eu tremia. Ver as fotografias captadas pelo drone da SIC e os testemunhos dos vários jornalistas, com especial atenção para a da RTP… é impossível não estremecer de horror.

A tragédia é de tal ordem que este incêndio, que ainda lavra e com quatro frentes activas, é já considerado um dos mais mortais a nível mundial. E convém não esquecer que há um outro, em Góis, muito perto. Hoje de manhã a minha mãe não descansou enquanto não conseguiu encontrar um mapa de Portugal. E mal analisou o mapa afirmou. “Eles vão-se juntar”. Se isso acontecer, e esperemos que não, apesar de a meteorologia e a geografia não ajudarem… que Deus nos acuda. De dois grandes incêndios passaríamos a ter um super incêndio. Um nunca antes visto.

Neste momento estão milhares de bombeiros a combater os fogos. Sem parar à cerca de dois dias. Já recebemos auxilio de Espanha (2 aviões), de França (3 aviões) e de Itália (2 aviões). Esperemos que chegue mais. Porque o nível de exaustão já deve estar para lá de qualquer escala. E isto abrange não só os bombeiros, incansáveis a combater o fogo, as autoridades, os médicos e enfermeiros, os civis que tentam salvaguardar os seus pertences…

Ontem, creio que na RTP, ouvi um profissional de saúde a mencionar a necessidade de as pessoas receberem auxilio psicológico para ultrapassar este trauma. E que esse auxilio deveria ser prestado não só às vitimas e familiares, mas também a todos os que estão na zona a combater e relatar o incêndio. E gostei de ouvir. Porque no meio de todo este trauma por vezes, demasiadas vezes, nos esquecemos das consequências e do sofrimento de quem vai acudir. E de quem vai transmitir a situação. Os bombeiros, os polícias, os enfermeiros, os médicos, os jornalistas… também são “gente”. Também se impressionam. Também sofrem.

Este é um texto sem ordem. São simples pensamentos, desordenados, que passam para o “papel”. Uma espécie de desabafo de quem já enfrentou, numa escala muito mais reduzida, incêndios que colocaram em risco a sua habitação. Durante anos vivi junto a uma mata, numa casa rodeada por hortas. E depois de alguns sustos todo o bairro se reunia, ano após ano, para limpar a mata e os terrenos à volta das habitações. Se impedia que houvesse um incêndio? Não. Mas diminuía a sua dimensão e dava-nos tempo. Talvez seja hora de deixar-nos de conversas e discursos e passarmos à acção. Aproveitemos que, infelizmente, grande parte da superfície esteja ardida para levar a cabo um plano nacional de ordenamento e gestão florestal. Criem-se corredores de segurança, os chamados corta-fogo. Voltem a apostar em espécies como o sobreiro. Fomentem a limpeza das matas. Impeça-se a vegetação nas bermas das estradas…. tanta mas tanta coisa que se pode fazer. Aproveitemos esta tragédia para aprender, de vez, as lições e actuemos. Para que isto nunca mais volte a acontecer.

 

PS: já agora… das capas de jornais que vi hoje as que me pareceram ser as mais adequadas porque conseguem simultaneamente dar dimensão do incêndio e da tragédia humana sem com isso entrar no sensacionalismo foram as do Público e do Diário de Notícias.

PPS: uma coisa boa disto tudo. A solidariedade que está a acontecer. As pessoas uniram-se e estão a ajudar.

 

 

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Alexandra Costa

Jornalista desde 1996 sou portuguesa de nacionalidade, alfacinha de nascimento, alentejana de coração e uma viajante do mundo. Adoro viajar, conhecer novas culturas, experimentar gastronomias. Sou viciada em livros e nunca digo que não a uma boa conversa. Basicamente sou apreciadora dos prazeres da vida.

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One thought on “O inferno chegou a Portugal

  • Junho 19, 2017 at 11:54 am
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    Faço minhas as tuas palavras. Esta tragédia faz-nos arrepiar e ficar cidrados. Não consigo deixar de estar em frente à televisão.

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