Ama-San, mulheres valentes que preservam tradição secular do Japão

É curioso quando percebemos que já sabemos tanto da cultura de um país e depois somos confrontados com mais uma nova característica e mais uma tradição que desconhecíamos. E que tradição, mulheres japonesas que fazem da sua vida mergulhar no fundo do mar à procura de abalones (moluscos), pérolas, ostras e algas para poderem viver e preservar uma tradição feminina milenar.

Tive a sorte de ser convidada para visionar o filme Ama-San de Cláudia Verdejão, uma co-produção entre Portugal, Japão e Suíça. As Ama-San (Ama significa pessoas do mar, em japonês), conquistaram o estatuto de colectoras e cuidadoras, questionando não só o papel da mulher na sociedade oriental como a própria natureza feminina.

O filme acompanha o quotidiano de três mulheres de idades distintas que há 30 anos mergulham juntas numa pequena vila piscatória da Península de Shima. Rodado entre o silencioso mundo subaquático e a vida rural, ao ver este filme mergulhamos nós também num retrato único de uma tradição que corre o risco de extinção. É que a  média de idades das mulheres que hoje ainda mergulham é de 67 anos. As mais novas têm 50 e as mais velhas  85 anos e nenhuma jovem parece estar a pensar seguir os passos. Assim, teme-se que desapareça uma das mais belas tradições orientais e sem precedentes. O que é uma pena, pois todas as tradições deviam ser preservadas.

Tendo em conta que estes mergulhos são dados no Japão há mais de 2000 anos pelas Ama-San das vilas piscatórias de Wagu, Ijika, Oosatsu e Toushijima, no Japão, um dos objectivos de Cláudia Varejão foi dar a conhecer esta secular cultura japonesa, para que se abram consciências e se possa, quem sabe, no futuro, lutar para que mais mergulhadoras sigam este caminho. O que não vai ser fácil, pois apesar das Ama-San terem um lugar especial, são também incompreendidas. O que muito se deve ao facto de serem financeiramente independentes, muitas delas serem o sustento da família, criando assim laços de irmandade dentro da comunidade.

A fotógrafa e realizadora Cláudia Varejão foi atrás desta longínqua e, para muitos, desconhecida realidade e retratou a vida desta comunidade de mulheres japonesas. As mulheres Ama-San mergulham, quase diariamente, sem garrafas de oxigénio ou qualquer outro apoio. Conseguem ir até aos 20 metros de profundidade e permanecer sem respirar durante dois ou três minutos, até realizarem a arriscada tarefa. Antes de mergulharem seguem um ritual que dura ainda algum tempo. Além das barbatanas e dos fatos próprios que cobrem todo o corpo e cabeça, as Ama-San dobram à volta da toca, um pano branco tradicional no Japão e só depois protegem os olhos. Acabada a pescaria, voltam para casa, vendem o que apanharam, tratam do almoço e depois precisam de descansar e recuperar da hipotermia provocada pelo frio da água.

Cláudia Varejão soube desta tradição e não quis deixar de contar a história destas ‘mulheres do mar’. Eu confesso que fui a medo ver um filme japonês. Não está no nosso ADN vermos filmes independentes e que não sejam histórias ‘Hollyodescas’. As primeiras cenas vi com o nariz torcido e a pensar ‘onde me fui meter?’, mas confesso que me fui envolvendo na história ao longo do filme, e aquele receio inicial de achar uma seca e que não ia gostar, facilmente se transformou em entusiasmo, pois estas ‘mulheres do mar’ são como qualquer mulher, que trabalha, é mãe, esposa e avó. Têm os seus afazeres domésticos e a sua vida. A diferença? É que têm como profissão ir à pesca, o que tradicionalmente é de homem, passam frio e correm riscos, mas a tradição e o amor à profissão fá-las seguir em frente e serem boas no que fazem. São felizes e até vivem a vida com bastante alegria, pois não deixam de se divertir. Aliás, o filme retrata também bem isso. É comum entre as Ama-San, haver festas, jantares e almoços entre todas, onde convivem, brindam e até cantam karaoke.

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Raquel Carvalho

Lutadora e apaixonada pela vida. É assim que me caracterizo. Para mim a família é o meu pilar e ser mãe foi um sonho tornado realidade. Os meus dois príncipes são a minha razão de viver e o meu orgulho. Adoro a minha profissão, pois escrever e fazer perguntas sempre esteve no meu ADN. Escolhi ser jornalista com seis anos de idade e consegui.

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