Jovens produtores que abraçam negócio familiar

Os negócios de família estão cada vez mais na moda. No sector do vinho, por exemplo, são muitos os jovens agricultores que, por paixão ou por tradição familiar, regressam à terra para dar continuidade ao negócio de família. E se uns sempre tiveram isso em mente, outros há que, apesar de terem ligações antigas aos vinhos, nunca tinham pensado em enveredar por esse negócio. Mas quis o destino que nele mergulhasse por engano. Foi o que aconteceu com António Maçanita de 38 anos. Sendo o pai natural da ilha de S. Miguel, Açores, desde criança que passa lá férias regularmente, tendo tido o seu primeiro contacto com vinhas “aos quatros anos quando pisei a pé as uvas na adega de um primo”, diz.

Porém, esse contacto nunca o tinha levado a querer seguir essa área. Aos 18 anos, fazia caça submarina e surf e essa paixão pelo mar fê-lo pensar em seguir Biologia Marinha. Aconselhado por um professor, resolveu escolher Ciências Agronómicas, mas um engano no código na hora da inscrição, colocou-o em Engenharia Agro-Industrial, que incluía Enologia. Desde aí, a vida deu uma grande volta. “Na universidade o entusiasmo pelas vinhas foi imediato”, revela. Daí a começar a plantar uma vinha na ilha do Pico, não demorou muito. Estagiou em França, trabalhou na Austrália e em Bordéus e, em 2004, criou com o sócio David Booth a empresa FITAPRETA Vinhos, com sede em Lisboa. Em Abril de 2014, criou com mais dois sócios a Azores Wine Company, tendo nesse mesmo ano produzido dez mil garrafas.

Agora, vive entre Lisboa e o arquipélago e quer apostar na casta Terrantez do Pico, quase em extinção, e nas monocastas Arinto dos Açores e Verdelho Original, que só existem ali. O objectivo é projectar os Açores, e o Pico em particular, como uma região de referência na área da vitivinicultura, recuperando 45 hectares de vinha.

Também Joana Santiago entrou no negócio do vinho sem nunca ter tido essa aspiração. Mas a paixão estava lá e a tradição familiar falou mais alto. Tanto que agora não se vê a viver de outra forma, ambicionando um dia viver em exclusivo do vinho e perpetuar a história familiar.

Joana Santiago, de 37 anos é um dos rostos da Quinta de Santiago, em Monção, região produtora por excelência de vinhos verdes no Minho. Propriedade da família desde 1899, a Quinta de Santiago sempre produziu Alvarinho. “Toda a família cresceu a fazer vindimas, a ajudar nos trabalhos da vinha e a acompanhar a avó Mariazinha na liderança dos trabalhos”, lembra. Porém, confessa que nunca tinha pensado enveredar no negócio. Licenciou-se em Direito, profissão que ainda exerce, acumulando com as funções na quinta desde 2009, quando a avó, já perto do fim da vida, desafiou os filhos e os netos a desenvolver o projecto Quinta de Santiago ‘boutique winery’.

O irmão mais novo, de 35 anos que vive em Inglaterra, onde é engenheiro de produção, “dá apoio nas exportações”, diz, mas a intenção “é regressar a Portugal “. Diariamente a gerir o negócio estão os pais, e é por isso que Joana ainda é advogada em Ovar, onde nasceu e vive, indo apenas ao fim-de-semana para Monção. No futuro quer dedicar-se a tempo inteiro ao negócio cujo portefólio será aumentado. Outra intenção é aumentar as exportações que pesam 15,25% das vendas’.

Quem, sem enganos, escolheu esta vida foi Patrícia de Magalhães, de 34 anos, um dos casos em que voltar (perto) à terra dos antepassados falou mais alto. A produção de forma independente começou em 2013 por influência familiar.

“O meu avô, um verdadeiro apreciador de vinhos, contava-me histórias sobre a família e sobre as vinhas dos meus tetravós, na Galufura, Peso da Régua”, conta.

Depois de algumas mudanças pessoais, o recomeço era inevitável e o ponto de partida foi voltar às origens e apostar em produzir vinho perto das terras dos seus antepassados. Foi assim que saiu do Porto, onde nasceu e sempre viveu, e decidiu assentar arraiais em Noura, concelho de Murça, em Trás-os-Montes, onde conheceu os seus parceiros de negócio: um é o dono das vinhas e outro da adega.

Para breve, esta “nano” produtora com uma formação pós-académica em Gestão de Empresas Agrícolas, e que já produziu mais de quatro mil garrafas de ‘Morphosis’ Douro

Branco ambiciona produzir o seu primeiro tinto e lançou este ano, o primeiro Douro Reserva, com uma edição limitada de 600 garrafas.

Apostar no negócio que já era tradição na família foi, também, a intenção de Nuno da Franca, que quis voltar à terra dos seus antepassados. “O negócio do vinho sempre fez parte da nossa família mas não com esta marca, Da Franca”, conta.

Com a produção de vinhos a ser feita no Bombarral, no distrito de Leiria, Nuno da Franca, antigo manequim internacional, que nasceu, estudou e viveu em Lisboa, decidiu ir viver para a Quinta há 20 anos. O produtor de vinhos assume-me também como um criador de vinhos, uma vez que, como explica, “além das minhas próprias vinhas, compro uvas e lotes já feitos e, com ajuda de enólogos, produzo exclusivamente os oito vinhos Da Franca.

Há ainda quem não se tenha mudado de malas e bagagens para a terra dos seus antepassados, mas que, a médio ou longo prazo, depois do negócio consolidado, tem essa intenção. Pelo menos é isso que confidencia o francês luso-descendente António Madeira, de 37 anos, que tem as suas raízes familiares no sopé da Serra da Estrela.

Uma das suas metas é que a região seja conhecida pelos vinhos de qualidade. E é isso que tenta fazer desde 2010 ano em que criou do zero a empresa com o seu nome, após “algum trabalho de pesquisas de vinhas velhas, que arrendo e cultivo depois de chegar a acordo com os donos”, explica, afirmando que quis “aproveitar as oportunidades da região”.

Ainda a viver em França, onde cresceu e se formou engenheiro, trabalha actualmente numa grande empresa de distribuição alimentar. Mas o sonho é regressar a Portugal quando o negócio já for sustentável e puder dedicar-se a ele a tempo inteiro, o que, espera, pode acontecer dentro de dois anos. Por enquanto, conta com a ajuda de familiares e amigos que em Portugal vão garantindo o crescimento do negócio.

Em cinco anos já produziu mais de 20 mil litros de vinho, tendo actualmente duas referências. No primeiro ano de comercialização, 2014, vendeu 1.500 garrafas. Em 2015, as vendas superaram as quatro mil garrafas. Nos próximos dois anos António quer vender entre seis a oito mil por ano “para daqui a três anos chegar às 15 mil anuais”, antevê, revelando querer alargar a gama para seis vinhos distintos.

História diferente é a de Tiago Cabaço de 33 anos, que nunca saiu da terra, e sempre quis explorar uma paixão antiga. “Habituei-me desde muito cedo a viver e a trabalhar no campo, na vinha dos meus pais, aprendendo com os mais velhos os pequenos e grandes segredos da vinha, as manias e os truques, os nomes das castas, quais os melhores solos e climas para cada variedade, habituando-me a tratar a vinha por tu”, conta.

Apesar da tradição familiar, a Tiago Cabaço Wines é um projecto que nasceu do zero em 2004, depois de decidir que estava na altura de deixar de ser piloto [de mota] Enduro e todo-o-terreno pela Yamaha, onde foi quatro vezes campeão nacional. “Quis mostrar as minhas convicções, personalidade e a minha forma de entender o vinho e o Alentejo”, diz.

Em doze anos, a empresa passou de uma referência para treze e de uma produção de 40 mil garrafas para meio milhão. As exportações pesam 45% na facturação.

Quem também nunca saiu da terra é Filipe Cardoso, de 40 anos, enólogo e administrador da Quinta do Piloto, em Palmela, onde sempre viveu.

A Quinta do Piloto, que tem cinco vinhos no portefólio, “é uma empresa familiar que abrange quatro gerações da família Cardoso a qual cresceu ligada à história da região de Palmela ao longo de um século”, explica. Surgiu no século XX com Humberto Cardoso, seu avô que, ao perceber as potencialidades do sector, “decidiu investir na compra de herdades e na construção de duas adegas”, diz, partilhando que também ele ambicionava criar vinhos Quinta do Piloto, um sonho que se tornou realidade em 2013, quando surgiram os primeiros vinhos engarrafados.

As vendas estão a bom ritmo e as exportações representam 25% da facturação.

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Raquel Carvalho

Lutadora e apaixonada pela vida. É assim que me caracterizo. Para mim a família é o meu pilar e ser mãe foi um sonho tornado realidade. Os meus dois príncipes são a minha razão de viver e o meu orgulho. Adoro a minha profissão, pois escrever e fazer perguntas sempre esteve no meu ADN. Escolhi ser jornalista com seis anos de idade e consegui.

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